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Por um ano com menos pressa

A cada começo de ano, observo pacientes, amigos e familiares definerem metas a serem alcançadas até que o ano termine. O ano mal começou e já estamos pensando nos resultados. Em um mundo em que somos cada vez mais definidos pelo nosso desempenho, gostaria de convidar todos a terem menos pressa e mais contemplação.

Particularmente, gosto muito da definição de contemplação do dicinionário de Oxford:


  1. ato de concentrar longamente a vista, a atenção em algo.


  1. profunda aplicação da mente em abstrações; meditação, reflexão.


O caminho do autoconhecimento é, necessariamente, contemplativo. É preciso estar presente e atento aonde pisamos e para onde vamos. Como nos canta Dona Ivone Lara: "Alguém me avisou pra pisar neste chão devagarinho...". A pressa é inimiga da contemplação.



A quantidade absurda e torrencial de informações e imagens que recebemos nas redes sociais e nos canais de notícias nos dá a sensação de sufocamento. Parece que todos estão fazendo algo em algum lugar, menos você. Que todos têm a vida resolvida, menos você. Mas a verdade é que se queremos estar elaborar algo próximo de um "sentido da vida", precisamos nos conectar com aquilo que faz sentido. Isso requer sair do imaginário das redes sociais de que a vida é opaca. Talvez cause estranhamento ler que a vida nas redes sociais é opaca, quando o que vemos é tanto brilho, cores e sons por aqueles cantos de lá. A opacidade se refere, nesse caso, a falta de complexidade que faz parte da vida humana.

Ser humano não é fácil. Por vezes, somos invadidos por sentimentos tão intensos, confusos e difíceis de nomear. Por essa razão, não se pode viver com a pressa das metas. Não é possível administrar a vida como uma empresa que visa obter lucros. Temos que ter tempo para refletir, para chorar, para ver quem amamos, para nos cuidar e para repousar. Construir uma vida leva tempo. Quanto tempo, não sei dizer, só posso afirmar que é o tempo necessário e que temos o direito de sempre mudar de opinião - e ter tempo para reelaborar e ressignificar.

Desejo a todos que esse ano estejamos mais em sintonia com essa poesia de Alberto Caeiro:


Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa diante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não: não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente onde meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não onde penso.
Só me posso sentar onde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa,
E somos vadios do nosso corpo.

Um ótimo ano para todos nós!

 
 
 

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