Uma analista deboussolée – ou nem tanto
- julianaunesppsico
- 5 de nov. de 2025
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Ao pensar no que escrever para esta revista, mudei de ideia algumas vezes no percurso. Esse processo me fez lembrar de outras tantas vezes em que desviei do caminho, recusei atalhos ou segui curvas inesperadas e acabei chegando a lugares que pareciam completamente diferentes. Mas, como psicanalistas, não somos tão desavisados assim e sabemos que o “completamente diferente” é um lugar também comum. Minha própria trajetória na psicanálise foi assim. Esse texto é para aqueles que, como eu, tem construído de forma não tradicional sua trajetória na psicanálise.
Quando decidi prestar psicologia, minha mãe que já havia feito o curso (sem nunca ter concluído) me disse apenas o seguinte: você vai odiar psicanálise. Minha mãe talvez seja a pessoa mais anti-psicanálise viva, por considerar que o discurso psicanalítico tradicional com o qual teve contato durante seus anos de formação nos anos 1980 era um tanto violento – especialmente contra as mulheres. Pois bem, assim cheguei na universidade, naquele lugar de deslumbramento que tanto estudei para estar, com uma única defesa: a psicanálise, não.
No primeiro ano de formação, tive contato com uma professora que dizia que o período de graduação era para experimentarmos e que deveríamos pensar nas diversas abordagens como diferentes lentes de óculos para observar o mundo. Eu levei isso a sério, desde que não fosse a psicanálise. Fiz iniciação científica em Análise do Comportamento, participei de grupos de estudo da psicologia Sócio-Histórica, li muito sobre fenomenologia e fiz minicursos em diferentes áreas quando tinha congressos. O marxismo, no entanto, conquistou meus pensamentos e coração. Não à toa: me formei na Unesp (campus Bauru) – universidade na qual vivi quatro anos de greve durante os cinco anos de curso. Além das greves terem sido um turning-point no meu pensamento político, vale considerar que o departamento de psicologia da Unesp tem uma presença marxista relevante. Meu maior interesse pelo marxismo foi porque o materialismo histórico-dialético me deu chaves de leitura e interpretação da realidade que eu não encontrei em outros lugares. Entender as relações entre o modo de produção e os processos de constituição subjetiva é um caminho sem volta – ao menos assim foi para mim.
Terminando a graduação, resolvi fazer mestrado em Minas Gerais, na Universidade Federal de São João del-Rei. Muitas pessoas que vêm tirar dúvidas sobre minha trajetória acadêmica me perguntam o porquê dessa escolha e, honestamente, os lugares que escolhi para estudar só tem a ver com meu desejo de conciliar os estudos acadêmicos com uma experiência de mundo. A Unesp foi a única universidade que prestei no interior porque eu queria saber como era viver fora de casa (lê-se: fora de São Paulo capital). Se fui para Minas era porque eu queria viver os forrós, as cachoeiras, a tranquilidade de viver-se em comunidade. No mestrado, eu atendi na clínica e fiz meu projeto pelas lentes da psicologia sócio-histórica.
Quando fui para o doutorado, voltei para a Unesp – mas, dessa vez, o campus de Assis. Fiz meu doutorado na modalidade cotutela, com uma parte dele na Universidade de Málaga – Espanha. Novamente, se me perguntarem o porquê Málaga, direi que é porque eu não queria passar frio e bônus: eu poderia ir para a praia. Outra coisa muito importante também aconteceu. Eu comecei minha análise. Já havia feito terapia no passado, mas não análise. E ali senti uma diferença fundamental na escuta e na direção do tratamento.
Meus caminhos na universidade começaram a dar sinais de esgotamento físico, mental e psicológico. E a clínica, que antes era algo secundário, veio para primeiro plano. Foi nesse momento que senti que os estudos marxistas encontravam um limite. Dez anos depois do ‘tudo menos Freud’ que minha mãe me prescrevera, encontrei-me num impasse. A clínica, antes secundária, se impunha. Meus referenciais marxistas, tão caros para pensar o social, já não davam conta de responder às questões que surgiam no encontro clínico. Aos poucos, a psicanálise deixou de ser apenas uma teoria a evitar e tornou-se uma possibilidade a ser investigada.
Decidi comprar um livro. Fui para a Livraria da Travessa, a minha favorita, e fiquei folheando os livros de psicanálise. Por onde começar, afinal? Era um mundo a parte que eu recusei por tantos anos, me definindo como marxista ortodoxa, que eu me sentia perdida. Não gostei de nenhum disponível, eu não queria que nada daquilo fizesse sentido. Sai de lá com um outro: “A vergonha é um sentimento revolucionário” de Frédéric Gros. Acredito que o leitor já deva ter entendido o que eu demorei mais alguns meses para entender. Eu não queria que a psicanálise fizesse sentido porque eu tinha vergonha. Como compactuar com um discurso freudiano que, apesar de ser belo em tantos sentidos, eu fui contra todos esses anos? Será que iria ter espaço para o marxismo, que até hoje me é tão caro? O que tudo isso dizia sobre mim?
Percebi que não era mais uma questão teórica, mas de análise. Eu não queria que a psicanálise fizesse sentido porque tinha vergonha: vergonha de compactuar com algo que por anos critiquei, vergonha de rever minhas certezas. Minha curiosidade, porém, era maior. Minha analista sugeriu que eu começasse pelo Nasio e assim o fiz. Fui participando de alguns grupos com leituras mais críticas, incluindo a marxista e tudo foi começando a se encaixar. Assim como marxismo me trazia uma grande satisfação em compreender o mundo do Capital, da exploração humana e das possibilidades de transformação; a psicanálise me trouxa outra: acessar uma parte do mundo interno, da repetição, da linguagem. Na medida em que compreendi mais sobre psicanálise, eu entendia também – para além dos meus analisantes – meu próprio processo. Eu devorava os textos dia pós dia, por vezes tomada pela angústia do saber sobre mim mesma. Essa angústia fui elaborando, no delicado trabalho de análise que minha analista conduzia, no que eu aprendi a ver como costurar um tecido com as palavras. Não a costura apressada das fábricas, mas a artesanal, feita sem urgência, cujo valor não está apenas na função de vestir-se, mas na beleza do ato de costurar.
Hoje, à beira de mais uma mudança — desta vez, para a França —, noto que continuo um pouco deboussolée. Mas já não vejo isso como problema. Perder a bússola, por vezes, é a única maneira de se deixar conduzir por outra lógica, mais sutil que a das rotas prontas: a lógica do desejo. É nele que reencontro minha orientação, mesmo quando me permito errar o caminho. Um segundo livro fez diferença para mim, nesse sentido: “Psicanálise afora: percurso e clínica de psicanalistas brasileiros no estrangeiro”, organizado por Eliana Betancourt e Mariana Anconi. Lembro de levar essa questão para meu supervisor da época, que me disse que pertencer é, no fundo, uma ilusão. E se pensamos que entendemos alguém apenas por compartilhar a mesma língua, também estamos iludidos. Disso, Lacan já nos alertava. Comecei a atender em francês antes de me mudar e encontrei satisfação na abertura de sentidos do jogo dos significantes em outra língua.
Talvez seja essa a utilidade de estar — e de escrever —deboussolée (mas nem tanto): permitir que outros também se autorizem a se perder, a se desorientar de vez em quando. Nem sempre a bússola aponta para onde precisamos ir; às vezes é preciso largá-la para ouvir o que nos move. Se minha história tiver alguma função para o leitor, que seja essa: lembrar que o trabalho analítico não é sobre colecionar certezas, mas sobre atravessar impasses e reinventar o percurso. Afinal, foi justamente ao dizer “tudo menos Freud” que comecei, sem saber, a traçar o percurso que me trouxe (de volta?) à psicanálise.


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