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A gente deseja desejar

Eu tenho um anúncio no Google Ads e, a cada dois ou três dias, dou uma olhada para saber o que as pessoas têm pesquisado quando buscam por uma psicóloga.


A maior parte do meu público é feminino e aqui vai uma coisa interessante sobre essa experiência no último mês: a maior parte das pesquisas é sobre relacionamento.


Perguntas como: será que sou amada? como restaurar meu casamento? o que significa se ele não me respondeu? meu marido não me ama mais, o que fazer? não consigo mais gozar com meu marido, o que isso quer dizer?


De uma certa forma, eu fiquei surpresa. Pela minha experiência clínica, eu sabia que o sofrimento de muitas mulheres vem das relações amorosas. Mas, por outro lado, eu não tinha a dimensão da quantidade de pesquisas em torno dessa temática.


Nós, mulheres, somos ensinadas desde cedo que nosso valor está associado ao status do nosso relacionamento. Basicamente, só somos respeitadas de verdade se há um homem envolvido - e, de preferência, um marido. É muito possível também sabermos disso, questionarmos, sermos contra e, ainda assim, nos sentirmos afetadas por isso. É algo muito enraizado na socialização feminina.


Ao mesmo tempo, isso me fez refletir muito sobre a dinâmica do próprio desejo, a partir de uma perspectiva psicanalítica. Para a psicanálise, essa angústia que insiste em voltar tem relação com as situações que a gente se envolve e que se repetem. É aquela sensação de olhar para sua vida e pensar: "poxa, de novo eu estou vivendo a mesma situação, mas com outros personagens". Há algo que tentamos resolver com essa repetição, mas que nunca é alcançado.


Olhando para as pesquisas feitas pelas mulheres no google, fiquei refletindo sobre isso. Quantas delas já não se viram pesquisando ou pensando a mesma coisa com outros relacionamentos? Por que esse amor é tão importante?


Quando nos perguntamos se somos amados, evitamos, talvez, uma pergunta mais importante: qual o lugar que esse amor ocupa em nossa vida?


Vivemos todos os dias com a ilusão de que o amor pode nos tornar completas. Então, quando pedimos que alguém nos ame, é também um pedido de completude. É uma fantasia de que existe a tampa para a sua panela e que, se você finalmente tiver a garantia de que é amada, não terá mais sofrimento.


Mas essa garantia não existe.


Na perspectiva da psicanálise, é como se fossêmos Achille naquele paradoxo matemático de Zenon.



Nessa história, Achille apostou uma corrida com uma tartaruga. Mas, como a tartaruga é mais lenta, ele concedeu a ela uma vantagem de sair na frente dele. O problema matemático é que Achille nunca será capaz de alcançar a tartaruga, porque entre ele e ela há um espaço infinito. Achille pode se aproximar, mas nunca alcançar.


(se eu expliquei algo errado, os matemáticos que me perdoem. Vamos focar na metáfora).


O desejo é sempre um espaço vazio. É o espaço entre Achille e a tartaruga. Mas, por ser impossível viver com esse vazio, sempre preenchemos com algo para ir atrás. A tartaruga, nessa metáfora, apenas esconde o fato de que Achille não quer a tartaruga em si. Poderia ser qualquer outra coisa. Ele quer correr.


Nas relações amorosas, isso seria como dizer que as mulheres buscam não é o amor especificamente de seus parceiros. É o desejo de ser desejada.


É impossível fugir do desejo. Mas, quando desejamos sem saber sobre nós, nos envolvemos em situações complicadas (para dizer o mínimo), tentando preencher esse espaço vazio desesperadamente. E aí as pessoas se envolvem em relacionamentos ruins, nunca se sentem satisfeitas e colocam na mão do outro a responsabilidade pela própria felicidade.


Se, por um lado, essa visão pode nos assustar por nos relembrar que esse buraco existencial que temos em nós jamais poderá ser preenchido, por outro, também nos convida a refletir sobre o que NÓS queremos e não o que querem de nós.


Recomendações do mês

Uma série que se encaixa muitooo nessa conversa: "The Testaments", disponível no Disney +. Segue a história de The Handmaid's tail. Eu nunca tinha visto The Handmaid's tail e consegui compreender o contexto geral. Vale muito a pena MESMO.


Não tenho escutado muita música, mas tenho trabalhado ouvindo essa rádio indie no youtube:



 
 
 

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