Cansei dos algoritmos
- julianaunesppsico
- 24 de mar.
- 4 min de leitura
Nos últimos anos, como muitos, eu tenho gostado de assistir séries que retratam um mundo distópico no qual tudo o que conhecemos como civilização deixou de existir. Particularmente, tem dois episódios de duas séries diferentes que mexeram com meu coração. O primeiro foi Long long time, terceiro episódio da primeira temporada de The last of us. O segundo se refere a Graceland, o primeiro episódio da segunda temporada de Paradise. São episódios que deixam de focar tanto no caos de um mundo pós-apocalítico e mostram a reconstrução da vida. O foco no presente, a melancolia pelo passado perdido, a tentativa de ser feliz apesar de tudo. São os episódios que me fizeram chorar rios inteiros.

Acredito que, por um lado, isso se deva ao quanto, por vezes, me sinto desesperançosa sobre um futuro melhor - e, nesse caso, realmente começa a parecer que demolir tudo e construir de novo seria a melhor saída. Por outro lado, me dá um alívio saber que seria possível viver em um mundo onde a inteligência artificial, as Big Data e as redes sociais deixam de ter um papel relevante na nossa vida.
Os algoritmos têm deteriorado nossa experiência humana de conexão real, nosso pensamento crítico e até mesmo a capacidade de viver em uma sociedade minimamente democrática. Devo me corrigir quanto a isso. Não, não são os algoritmos. Eles não são entidades abstratas, onipotentes e oniscientes. São os grupos humanos os responsáveis por usar dos algoritmos para explorar nosso tempo, nossos dados e nossa privacidade até não sobrar mais nada que seja só nosso.
Tudo isso me assusta e recebo cada vez mais na clínica queixas como "sou viciado em celular", "me comparo muito com fulano na internet", "o chatgpt disse que eu tenho TDAH", "tenho medo de fazer provas sem poder consultar uma IA", dentre outras. Não julgo meus pacientes, mas tento mostrar para eles esses dois lados da moeda: não somos culpados por sermos explorados digitalmente, mas temos que assumir alguma responsabilidade por isso.
Responsabilidade por, de certa forma, nos deixarmos capturar pelas imagens e vídeos sem fim dos nossos feeds. Responsabilidade por permitir que todo nosso tempo seja usado para gerar lucro para influenciadores e redes sociais. Responsabilidade por não estar presente na nossa própria vida tanto quanto deveríamos estar.

O que me parece, cada vez mais, é que estamos perdendo a capacidade de contemplar a vida. É algo que fundamentalmente nos distingue de outros animais. Podemos olhar para além, pensar de forma abstrata, formas ideias... e contemplar o mundo ao nosso redor. Infelizmente, as crises existenciais vêm nesse pacote, eu sei. Mas podemos lidar com elas como motor para criar.
Outra coisa que me incomoda profundamente é que a nossa existência offline parece cada vez menos palpável que nossa vida online. O celular se tornou um novo self, uma continuação de quem nós somos. Tenho receio de ficar muito tempo sem entrar na minha conta do instagram pessoal e perder decisões sérias que meus amigos tomaram. Isso já aconteceu muitas vezes e depois ouvi o seguinte: "ué, mas eu postei. Você não viu?"
A questão, nesse caso, é que a conexão pessoal, mais íntima, está sendo substituída por uma comunicação geral via redes sociais. Se estamos doentes, pedimos uma sopa pelo ifood e não ligamos mais para ninguém vir nos ajudar. Se queremos comprar algo, usamos a amazon e não precisamos mais interagir. E, talvez, isso até possa fazer parecer que podemos viver isolados e de que não somos dependentes de ninguém. Mas "ninguém pode viver sozinho". Já dizia Maya Angelou.
Não há problema algum em tornar a vida mais prática. Acho, inclusive, que isso fala de algo mais profundo: estamos cansados, sobrecarregados, trabalhando horas intermináveis e sem tempo. A tecnologia, obviamente, facilita nosso cotidiano.
Mas... e se tudo isso estiver nos deixando sem tempo para o que realmente importa? E se o trabalho de interagir, sair de casa, ser visto, ouvido, debater com aquele seu tio com opinões políticas opostas também for tudo parte essencial da existência humana?
Não acho que a tecnologia nos trouxe muito mais felicidade. Os Jetsons mentiram para nós.

Esse texto tem um tom pessimista porque acredito que nos falta olhar com mais tristeza para o que a vida tem se tornado. Tristeza e raiva são sentimentos importantes para fazermos mudanças. Apesar disso, acredito que ainda há saídas. Aposto no encontro olho a olho com meus pacientes (mesmo que virtualmente), no tempo de qualidade com a minha família, nos espaços presenciais em que encontro grupos bacanas e no sonho coletivo de um futuro melhor.
Esse texto foi feito sem nenhuma ajuda da inteligência artificial. Pode ter erros e até ter ficado ruim... mas pelo menos posso dizer que é meu.
Recomendações:
Esse filme dialoga muito com esse texto: - Dias perfeitos (Wim Wenders)
Música que não sai do meu looping: Voz do Brasil (Urias, Major RD)
Livro para compreender mais o papel destrutivo dos algoritmos: Weapons of Math Destruction: How Big Data Increases Inequality and Threatens Democracy (Cathy O'Neil)


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