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Você se sente mais sozinho?

Quando os novos meios de comunicação surgiram, havia uma promessa de que seríamos menos sozinhos. Minha mãe me conta até hoje sobre a surpresa que ela teve quando, em meados dos anos 1990, meu pai chegou em casa contando que havia chegado uma nova máquina no seu trabalho. Essa máquina era maravilhosa: as pessoas enviavam um documento de um lado do mundo e o papel poderia sair de outro local completamente diferente!


Era o fax.


Hoje, o fax está ultrapassado. Em poucas décadas, a comunicação se tornou extremamente mais rápida. Em 1996, lançaram o ICQ. Em 1999, surgiu o MSN. Logo depois, outras redes sociais e formas de conexão se desenvolveram, até chegar nas mais usadas no mundo de hoje: o falecido Twitter (agora chamado de X), o Facebook, o Instagram, o Whatsapp e o Tiktok.


Essas formas de comunicação, abriram possibilidades nunca antes pensadas. Tornou-se mais fácil se envolver em comunidades ao redor do mundo, por exemplo. Agora, você poderia ser parte da comunidade emo ou kpop, mesmo habitando em uma cultura completamente diferente. Em 2001, o projeto Wikipedia também começou, reunindo pessoas que queriam contribuir com a sistematização do conhecimento humano. Ou seja, passou a ser possível ter acesso a temas que só existiam nas bibliotecas. Isso foi um grande passo em direção a democratização do conhecimento.


No entanto, nada disso significou que a humanidade estava se tornando melhor, como um todo. Obviamente, porque a internet faz parte de um sistema que estamos inseridos. Todos esses avanços coexistem com níveis absurdos de desigualdade social, de violência e de discriminação. Portanto, as formas de comunicação online também passaram a refletir e aprofundar essas questões sociais. O anonimato e a segurança trazida pela sensação de que estamos ocultos por trás de um perfil online, por exemplo, permitiu que os discursos de ódio e as fake news se disseminassem. Muitos continuam sem acesso a democratização trazida pelo avanço tecnológico e o uso indiscriminado de inteligência artificial está prejudicando as capacidades cognitivas de pessoas com baixa escolarização.


Além de tudo isso, não estamos nos sentindo menos sozinhos. Pelo contrário, o sentimento de solidão aumentou. As pessoas fogem de atender o telefone tal qual o diabo foge da cruz. A preferência por se comunicar em texto se infiltrou na maior parte da população com acesso a redes como o whatsapp. É muito mais conveniente digitar ao invés de falar.


Mas será que as relações sociais deveriam ser tão convenientes assim?


Não precisamos mais ligar para pedir uma receita ou chamar um amigo para fazer uma sopa quando estamos doentes porque temos aplicativos de delivery na palma da mão.


A facilidade é inegável e não acredito que exista um mundo em que possamos voltar atrás. Tão pouco acredito que seja aceitável romantizar o mundo de antes.


Mas temos que refletir, porque ainda há maneiras de criarmos uma rede de apoio mais ampla. Ainda que isso exija sairmos da nossa zona de conforto. Atender o telefone, sair de casa e ir para um lugar diferente ou ter uma conversa importante presencialmente.


Com certeza podemos viver nos sentindo sozinhos. Mas, correndo o risco de ser clichê, ainda sou uma pessoa que acredita que para irmos mais longe, precisamos ir juntos.


 
 
 

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